Quando o agora presidente interino da
Venezuela, Nicolás Maduro, anunciou que o
corpo embalsamado de Hugo Chávez seria
colocado em uma urna de cristal no Museu da
Revolução, para visitação pública, pareceu
que se tratava apenas de uma repetição da
história.
O próprio Maduro citou os exemplos dos
líderes Vladimir Lênin, Mao Tse-tung e Ho Chi
Minh, respectivamente da ex-União Soviética,
China e Vietnã, cujos corpos também foram
embalsamados, colocados em uma urna de
cristal e expostos ao público.
Mas, enquanto esses dirigentes estão todos
em endereços nobres (Lênin na praça
Vermelha, Mao na praça Tiannamen e Ho Chi
Min na praça Ba Dình), Chávez ficará em um
quartel incrustado na favela 23 de Janeiro,
cercado por moradias precárias por todos os
lados.
No relevo montanhoso, na arquitetura e na
pobreza, trata-se de espécie de Complexo do
Alemão, o famoso conjunto de favelas do Rio.
Mas é um Complexo do Alemão bolivariano,
logo se vê. Coloridas por murais espalhados
por todo o bairro, as paredes do 23 rendem
tributo aos ícones da esquerda, grafitados por
jovens da própria comunidade.
Marx, Lênin, Che Guevara, o ditador líbio
deposto Muammar Gaddafi e até um Cristo
com a Constituição venezuelana aparecem ao
lado de uma imagem da Virgem Maria
segurando um fuzil AK-47.
Verdade que o sonho dos chavistas seja o
traslado imediato dos restos mortais de
Chávez para o Panteão Nacional da Venezuela,
endereço nobre onde se encontram os restos
dos personagens mais importantes da história
do país e, é claro, de Simón Bolívar, o
Libertador.
Essa transferência, porém, depende de
aprovação da Assembleia Nacional e, por lei,
só pode ir a voto 25 anos depois da morte do
dignitário.
Um jeito de abreviar o tempo seria com um
referendo, tão ao gosto do modo chavista de
governar, mas até isso demora para organizar.
Por isso, todos em Caracas dão por certo que
"El Comandante" terá seu período na favela.
A Folha visitou o local anteontem, a bordo de
mototáxis. Mas também se pode chegar ao
quartel em caminhonetes equipadas com
bancos na boleia (tarifa de 10 bolívares ou R$
3). Dez passageiros por viagem.
Também há os carros americanos dos anos
1950, muito bem conservados, serpenteando
pelo ladeirão estreito e íngreme.
"Como faremos para transportar todas as
pessoas que desejarão visitar a câmara
mortuária de Chávez? Aqui não chega ônibus,
não chega metrô", angustia-se um dirigente
do Conselho Comunitário, que não se
identificou.
O antigo quartel, hoje pintado na cor
amarela, abrigou a primeira Academia Militar
de Caracas, virou Museu Histórico-Militar e,
nos últimos anos, sediou um Comando da
Reserva Bolivariana. Agora, será transformado
em museu cuja principal peça de acervo será
o corpo de Chávez.
SIERRA MAESTRA
E por que lá? O bairro pobre do 23 de Janeiro
foi o primeiro feudo chavista. E é assim até
hoje. Lá, o presidente morto conseguia, fácil,
fácil, dois terços dos votos.
Carinhosamente, os bolivarianos apelidaram o
local de "Sierra Maestra", que hospedou a
guerrilha de Fidel Castro em Cuba.
"Aqui é o 4F. Foi aqui que tudo começou",
diz Elizabeth Torres, 48, dona de uma barraca
de biscoitos, controlada pela Comuna
Socialista Simón Bolívar, a subprefeitura
local. Explica-se: 4F é a abreviação de 4 de
fevereiro de 1992, o dia em que o então
tenente-coronel Hugo Chávez e 300 militares
tentaram um golpe contra o presidente eleito
Carlos Andrés Pérez.
Foi no quartel (com vista privilegiada para o
Palácio de Miraflores, sede do Executivo
venezuelano) que se entrincheiraram os
rebeldes até serem presos. No bairro não se
fala no 4F como um erro, golpe ou tropeço
antidemocrático. "Foi o começo da
emancipação anti-imperialista", diz o ator
Oscar Abad, 61.
Tanto fervor revolucionário não basta para
esconder o outro lado "Complexo do Alemão"
do bairro que receberá o corpo de Chávez.
Sob a condição de se manterem incógnitos,
vários moradores relataram a forte presença
de narcotraficantes no pedaço, inclusive
fechando ruelas e becos a pessoas estranhas.
Não se veem policiais ali.
E a segurança dos que vierem visitar o Museu
da Revolução?, perguntou-se. "A Comuna
Socialista e o Conselho Comunitário
garantirão a tranquilidade de todos",
respondeu um dirigente local.
Na praça em frente ao quartel, crianças
vestiam camisetas com a bandeira de Cuba,
enquanto um instrutor ensinava-lhes como
segurar o taco de beisebol, o esporte
nacional. Por enquanto, estava tudo tranquilo.
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